//A arte enquanto fotografia
Enquanto estamos à sós, é normal que pensamentos nos venham à mente, povoando nossos delírios e escancarando nossas percepções sobre aquilo que está ao nosso redor. São esses pensamentos desestruturados que me fazem escrever esse texto. Quando via a foto que a Dani fez, não estava sozinho. Estava em casa, tinha acabado de acordar e era por volta de umas 16hs. Tinha almoçado e estava cansado de uma viagem de 7 dias, onde fui atingido de todas as formas possíveis por diversos tipos de imagens fotográficas, já que estava em um evento sobre este assunto. Logo em frente, a mulher com a qual eu converso todos os dias há muitos anos. Mesmo assim, com tanto ao meu redor, fui atingido de tal forma que não consigo descrever ainda. Por isso talvez, esse texto, como uma forma de expiar um sentimento, uma impressão que se formou.
Presente na minha frente, a foto em questão, feita para um casamento. Minha reação inicial é constatar: que foto linda!
Adoro o olhar da Dani. Perspicaz, é capaz de enxergar a beleza que é peculiar. Não aquela comum, mas a que é mais difícil de perceber: a que é composta por quem olha e pelo que é visto. Pois o belo a meu ver, não se dissocia nem da obra e nem do espectador, se perfaz nos mesmos. Enquanto assim, os faz necessários para que exista a si próprio.
Há teorias que afirmam termos níveis de percepção de acordo com diversos fatores. Proximidade do assunto, quantidade de visadas, reconhecimento de símbolos culturais ou pessoais. Fatores implícitos na imagem ou forjados em nossa experiência de vida. Não importa. A imagem acima, dada por uma situação vivida, não depende de análises ou questões pessoais para se perfazer de elementos que em conjunto expressam uma beleza única. Os olhares trocados, a perfeita divisão de cenas, que impele a que em algum momento não percebamos o que é quadro e o que não é, há uma força na imagem que gera uma quantidade de informações que não só complementam nossa percepção do que é visto, mas também nos instiga a olhar cada vez mais longe da superficialidade de uma visada primária, rápida, infeliz.
A imagem faz nosso olhar circular pelo que está presente na mesma. O contraste, que é evidente e necessário para expor o motivo da fotografia, traz em si outro: o da situação vivida. Como se as moças presentes à direita pudessem perceber o que está acontecendo, miram a noiva que se prepara para seu momento, e ainda que o olhar da noiva seja direcionado para, imagino, a fotógrafa, esta, experiente, nos instiga a perceber a imagem de outra forma. Como se nos fizesse pensar na imagem como uma forma de expor um sentimento. Não só um momento, mas uma situação que exacerba valores e traz para a nossa realidade o que está na imagem. Fazendo com que nos identifiquemos de alguma forma com o momento vivido. O sentimento exposto, seja qual predomine em sua inconstância dada pela não-linearidade de leitura da foto, traz para quem vê sensações diversas. De alívio, de amor, de carinho, de inveja, de vontade de estar lá. Ainda que não seja plausível. Assim como não o é para as garotas no quadro, dada sua própria condição: serem unicamente pinturas.
E assim a imagem delinea-se: Enquanto pinturas nos colocamos, admirando a moça que vai se casar, invejando de boa-fé seu momento, admirando sua beleza, seu olhar forte demarcado pela maquiagem, que nos encara e exige que nós nos posicionemos. Assim, ao ver a foto, compactuamos com as moças do quadro, que ao admirar a beleza da noiva, nos faz admirar a beleza da fotografia. Que, pra mim, enquanto provoca essa maré de sensações, deixa de ser imagem para se tornar algo maior: arte.


Vitor Vilarinho 11/14/2011
Belíssima composição, belíssima “leitura” da imagem feita. Adorei a forma como a imagem nos faz ir e voltar com sua “leitura” as vezes descompassada mas linear e prazerosa. Parabéns aos dois.