//Entrevista! Clício Barroso
É com muito orgulho que inicio uma nova sessão no blog: Entrevista! Mas antes de partirmos para a matéria propriamente dita, gostaria de explicar um pouco sobre esta nova parte do blog. Muitos devem conhecer um programa de entrevista chamado Inside the Actors Studio. Para quem não conhece, é um programa em que James lipton, o apresentador, traz para o palco da New York School atores, diretores, escritores e outros para falarem de suas vidas e profissões, respondendo perguntas suas e de seus alunos. Pois é exatamente daí que nasceu a inspiração para o projeto de entrevista deste blog. Não queria fazer algo em que eu faria as perguntas para a pessoa, mas que fossem meus alunos que formulassem as questões. Eu teria a função de fazer uma triagem selecionando as melhores/curiosas para enviar para o entrevistado e postar no blog.
Dessa forma, eu consigo (imagino) tratar de uma questão interessante: a maioria dos estudantes tende a imaginar uma distância irreal entre o profissional que se realizou na profissão escolhida e se tornou conhecido através de seu trabalho árduo, e si próprio, enquanto aluno. Esse distanciamento, necessário às vezes pois faz com que a motivação exista, já que cria um patamar profissional a alcançar, prejudica o estudante, na medida em que imagina que o acesso ao conhecimento adquirido por tal profissional seja inalcançável. Fato é que este pensamento o distância ainda mais de sua realidade, seja profissional ou social. Meu desejo é que esta sessão no blog sirva para criar um canal de comunicação mais direto, ou pelo menos que torne mais próximo aqueles à quem os alunos e eu mesmo enquanto professor devotamos nosso interesse de aprendizagem.
Para o primeiro entrevistado, que permitiu que eu começasse com o pé direito esta sessão, um dos mais respeitados fotógrafos do Brasil, conhecido internacionalmente pelo seu trabalho: Clício Barroso! Eu o escolhi porque além de excelente profissional, ele tem um profundo enbasamento teórico que fundamenta suas ações enquanto profissional. Pesquisar sobre o Clício é um prazer, pois descobre-se muito sobre a fotografia brasileira e mundial. Agradeço novamente a participação na sessão entrevista! e a compreensão da importância deste projeto.
Feita esta breve introdução para este momento único, um recado para meus meninos (alunos) e visitantes: De forma intencional fiz este post com a maior quantidade de links possíveis para referência. Não leiam este post de forma linear. Utilizem da hipertextualidade da internet para saltarem desta página para outras a cada link externo que forneço. Garanto que a leitura será muito mais proveitosa e rica.
Bom, vamos a apresentação de nosso entrevistado e a suas respostas às questões levantadas pelos meus queridos alunos!
Entrevistado: Clício Barroso
Primeiro uma rápida apresentação: Clício Barroso Filho é, segundo texto de seu site, fotógrafo profissional, professor de tecnologia digital, consultor da Adobe,consultor do Senac SP e presidente da Associação de Fotógrafos Fototech. Iniciou seu percurso profissional em 1972, como assistente de câmera e de direção de cinema, enquanto cursava a Camera Photoagenthur / Nikon School of Photography; cursou também a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Como fotógrafo profissional, morou e trabalhou em New York, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Madrid, Lisboa e Atenas, fotografando editoriais de moda e publicidade. Atualmente, trabalha para clientes nacionais e norte-americanos, participa de exposições coletivas e individuais, e por três vezes recebeu o Prêmio Abril de Jornalismo, categoria Fotografia.
Mas não foi somente lendo a descrição de seu site que conheci a importância deste fotógrafo. Durante o semestre passado, precisava ministrar um curso de lightroom na faculdade em que trabalho. Apesar de já conhecer bem a ferramenta, quem me conhece sabe que sou um perfeccionista. Dessa forma, precisava encontrar alguma referência para estudar e aprender mais do software. Eu já conhecia o Clício de um outro material, um curso em que ele ensina a tratar a pele e fazer o que chamamos de maquiagem ditigal. Este já era um excelente material, e meus alunos também o adoravam. Descobri então o seu site. Lá fiquei espantado (besta até) da quantidade de informação sobre lightroom que ele disponibilizava de forma gratuita. Muita coisa. Descobri depois que o Clício é um expert no programa, com reconhecimento da própria Adobe. Assisti a todos os vídeos, que me acrescentaram muito em conteúdo para minhas próprias aulas. Estava espantado em como um profissional de seu gabarito disponibilizava tanta informação assim. Não sou ingênuo, sei que o Clício ganha muito, de várias formas, ao fazer isto. Mesmo assim, é dificil encontrar no mercado pessoas com essa disponibilidade. Continuando, adquiri seus livros e cursos em DVD.Comecei a segui-lo no twitter. Ler cada postagem de seu blog. Acompanhar seus textos do Paraty em foco e outros. enfim, aprendi que havia muito mais a ensinar para meus alunos. O resto vocês já sabem.
Feita a apresentação e continuando o post, abaixo algumas fotos suas que estão disponíveis em sua página no site/blog olhares. Vá ao site para ver outros trabalhos dele.
Em seu blog anterior, podemos achar alguns trabalhos seus, como por exemplo esta montagem sobre retoques feitos em algumas de suas fotos. Fiz uma montagem do que está disponível no site antigo do Clício para facilitar a visualização, mas se você quiser pode clicar na imagem para ir ao link original.
Além do trabalho digamos “roteirizado” em que tem que seguir a direção de arte do briefing, Clício tem também um excelente trabalho autoral. Em seu site temos acesso ao material de vários trabalhos seus. Dispostos em vários de seus posts, vale a pena uma visita ao site para apreciar tanto a imagem quanto o texto que a acompanha, como na primeira imagem a seguir, que trata das fotos de retrato ou da segunda, cujo texto dispõe sobre o talento do fotógrafo. Logo abaixo, três fotos da exposição Love Transfers. Clique na imagem para ir ao link original.
Outra exposição que fez muito sucesso, foi a Verso/Reverso deste ano. Neste link, tem um texto da jornalista Simonetta Persichetti feito para o blog do Clício sobre a exposição em si. Vale muito a pena a visita. Foi lá onde achei um vídeo de making-of sobre uma das fotos expostas, bem legal para poder ver o trabalho deste excelente fotógrafo. Segue a foto e aqui está o link para o video do making-of, vale a pena assistir!

Verso - Reverso / Clício Barroso
Sobre as fotos, ele mesmo fala em um outro site: “Fiz primeiro as fotos delas produzidas, maquiadas, poderosas e se sentindo seguras. Depois, peguei as mesmas mulheres e as fotografei totalmente desmanchadas e borradas, com cólica menstrual, sozinhas e com raiva do namorado”. (fonte: revista algo mais). Foi lá que eu descobri como foi montada a exposição, que influencia de forma direta o sentido da mostra: “Para que a mostra surta o efeito esperado, a disposição das fotos é fundamental. Assim, as imagens ficarão organizadas em dois pisos da galeria. No primeiro, estarão as modelos lindas e maravilhosas (Verso). À medida que se vai subindo as escadas para o segundo, o público dar de cara com a realidade nua e crua dessas mulheres (Reverso)” (Texto do jornalista).
Para finalizar esta parte do artigo, deixo três links para entrevistas que foram feitas sobre ele, onde pode-se descobrir um pouco mais deste fotógrafo, como por exemplo que ele não usa mais fotografia analógica, que a considera uma “tecnologia ultrapassada, poluidora e que, no final, tem hoje menos qualidade que a nova tecnologia.”(fonte: blog farinhada).
Entrevistas (leiam vale a pena!):
Entrevista bem detalhada, que permite tirar uma série de dúvidas deste profissional.
recomendo esta em especial pelo tópico interessante sobre beleza e o contexto do real
ok, não é bem uma entrevista, mas é legal ver perguntas e respostas das mais diversas possíveis, como por exemplo, descobrir que ele já se casou três vezes, e sempre com modelos (resposta para um internauta que pegunta pra ele se é fácil pegar mulher quando se é fotógrafo)
Merece menção também esta foto abaixo e um link para o vídeo que mostra o making-of da mesma, como um aprendizado de sua forma de trabalhar. Para assistir o vídeo clique aqui ou na imagem.
Além de fotografo, Clício é um grande incentivador da área, e a promove da melhor forma: pela educação. Em seu blog existe uma série de materiais que auxiliam estudantes, profissionais da fotografia e comunidade em geral tudo (ou quase) sobre fotografia, lightroom e qualquer outro assunto ligado à área fotográfica de forma direta ou não. Seus artigos são profundos e discutem de forma aberta temas que são caros e podem ser facilmente discutidos de forma superficial. Um exemplo? Estas matérias em seu blog sobre a fotografia, o fotógrafo, o talento e o aprendizado. Entre tantos outros, são três posts que merecem ser lidos, e deixo aqui os links para cada um deles, na sequência em que foram postados. Aproveitem!
Os equívocos do aprendizado fotográfico
Talento não existe. Não?
Talentos e oportunidades
Chegamos na entrevista!
Vamos lá? Abaixo as perguntas devidamente respondidas. Leiam, aprendam, e pesquisem mais e mais sobre este e outros fotógrafos brasileiros que tanto têm a ensinar!
1. Que tipo de trabalho você evita fazer?
Qualquer trabalho que envolva cigarros (tabaco), bebidas alcoolicas, e propaganda nitidamente enganosa. Aliás, tenho feito muito pouco de publicidade, e cada vez mais me dedico a meu trabalho pessoal, autoral.
2. Em um dos posts de seu blog, você chama atenção para a questão da formação acadêmica. Nos comentários, ficou evidente a importância da mesma para o profissional. Qual seria uma estrutura interessante de ensino para a formação de um bom fotografo? O que teria que ser contemplado com mais ênfase para aumentar a qualidade do curso?
Bem, a formação, teórica e prática, me parece imprescindível no mundo atual; o problema parece ser o balanceamento entre as duas áreas; há hoje mais teóricos que técnicos saindo da academia, e isso provoca algumas frustrações, como fotógrafos que não sabem fotografar (falta de técnica) ou curadores que não tem trabalho (excesso de teóricos). Acho que o segredo é a boa dosagem de teoria e prática.
3. Ao olhar uma foto, o que te chama mais atenção? Como você avalia uma boa foto?
Composição; intenção; conceito; realização; qualidade técnica; ampliação; montagem. Na verdade, o conjunto é importante, e tudo tem que ser levado em consideração.
4. Quais dicas fundamentais você daria aos fotógrafos que, como nós, estamos entrando no Mercado de trabalho?
O óbvio; muito estudo, muito museu, se preocupar em ver e estudar áreas correlatas, tais como design, arte, história da arte, filosofia, vídeo, cinema. Livros, livros, livros. Exposições e mostras, bienais, eventos culturais de fotografia e artes. Ética, orçamentos dignos e justos, concorrência saudável, pertencer a associações de fotografos reconhecidas. Novamente, o conjunto faz o fotógrafo.
5. Diante de todas as técnicas e regras utilizadas na formação final da fotografia enquanto imagem, como balanço de branco, medição de luz, regra dos terços e outras tantas mais, você acredita que se perdermos essa “linha” seguida pela maioria dos fotógrafos como “regras fundamentais” para um “bom produto final”, estaríamos cometendo um erro? Ou apenas seguindo um estilo próprio?
Naturalmente temos que ter, como em todas as atividades, regras fundamentais. Todas essas são pertinentes, até que sejam dominadas. Uma vez que se tornem automáticas, aí sim, podem ser esquecidas, revertidas, ultrapassadas. Mas é preciso conhecê-las, antes de ser “criativo”.
6. Nessa transição do analógico para o digital, os fotógrafos ficaram mais acomodados no momento do “click”, já que tiram a foto pensando em uma futura manipulação. Até que ponto podemos utilizar os recursos que o digital oferece sem perder aquele sentimento da captura, de análise e composição da imagem?
Para mim, nada mudou, a preocupação com a captura é a mesma, já que o trabalho que a pós produção me traz é muito maior do que fazer a foto direito no momento da captura. Penso que a pós é indiscutivelmente necessária, mas partindo-se do melhor original possível se vai mais longe…
7. Você tem um estilo próprio, uma característica, que permita identificar uma imagem como sendo sua?
No trabalho comissionado, de publicidade, não. Faço o que está no layout, e o melhoro visualmente se possível. Em meu trabalho pessoal, sim, procuro ser original e ter um diferencial próprio.
8. Qual trabalho você mais gostou de fazer? E qual você não gostou de fazer? (porquê)
Todas as campanhas para a Mary Kay, companhia de cosméticos de Dallas, com alcance global. É bom ver suas fotos no mundo inteiro, em ônibus em Shangai e outdoors no México, muito bom. Detesto fazer catálogos, look-book, trabalho mecânico, repetitivo, sem a menor criatividade. Detesto.
9. O que te irrita na hora de fotografar?
Modelo burra. Cliente chato. Atrasos.
10. Você escolhe seus trabalhos ou faz o que aparece?
Hoje, escolho. Durante muitos anos, fiz o que me ofereciam (sempre com um preço justo, honesto).
11. quais seriam os parâmetros que limitam a manipulação da imagem na formação do padrão de “beleza de consumo” (termo utilizado em seu blog por Simonetta Persichetti, no post sobre a exposição verso/reverso)?
Os parâmetros do verosímil. Na verdade, cada vez uso menos o Photoshop para tratar imagens de beleza, há uma evolução para a imagem menos manipulada, menos falseada. Um problema, pois sou bom e conhecido justamente por isso, peles perfeitas, mulheres impecáveis. Mas isso não está me interessando tanto ultimamente.
Pra terminar…
Finalizo esse imenso post com um texto e uma foto. A foto é a forma como eu o vejo, professor e fotógrafo, e o texto, retirado de uma matéria de seu blog, “conceitua” a questão do talento, e eu concordo com ele:

Clício professor e fotógrafo como todos nós / Fonte: http://www.uel.br/pos/fotografia/?page_id=395
“Por razões geográficas, genéticas, culturais e sociais (incluindo incentivos afetivos e direcionados), o que chamamos de talento pode surgir bastante cedo. Uma inclinação para determinada atividade, porém, não vai longe sem oportunidade nem estímulo, e estes podem ser de qualquer tipo, incluindo o instinto de sobrevivência. Em seguida vem a vontade, o esforço pessoal, a dedicação; e por fim, o estudo profundo daquela atividade, mesmo que isso signifique a repetição quase infinita dos gestos, movimentos, atitudes ou palavras.
O talento é uma soma de todos estes requisitos, sintetizado e aplicado a pessoas.”
Bom, é isso! Obrigado Clício por seu posicionamento enquanto profissional e artista, e o reconhecimento de seu imenso trabalho é reflexo da seriedade e respeito com o qual você o pratica. Parabéns!
Abraços a todos e comentem o que acharam deste material!











Clicio 08/02/2010
Professor,
Muito obrigado pelo generoso espaço, e espero não decepcionar os alunos!
Até a próxima, que espero seja pessoalmente.
Abração,
Clicio Barroso Filho